Monday, October 06, 2008

Folha em Branco

Círculos enroscados numa superfície estalada, sobrevoa o tempo da imaginação. Chegam as folhas juntas dos gritos, escavando o corpo na tortura mórbida das tocas, e no desespero do labirinto o cabelo enlaça-se nos troncos rígidos.
Uns escalam muralhas, outros preferem poços, até sulcam campos devastados pelas inundações. Mascaram-se de lobos, sem puderem almejar à criação; vestem-se com cores mutiladas de violações sem se aperceberem do precipício; correm desalmadamente sentindo a ousadia da vontade com as mãos atadas às fogueiras frígidas; tiram imagens para a posteridade, fabricando um conto do qual ninguém pertence ao ser; afundam-se sem tocarem o infinito, ou tocarão sem eu o conseguir entender…

Saturday, October 04, 2008

Brilho Gélido

Readquiri o prolongado cântico
No reencontro da perplexidade.
Difusa queimadura de fogo
Renova o sopro
Com o brilho a escaldar
O renascer do ciclo virtual.
Emerge a escravadura obediente,
Aquela cuja sua manta é enigma,
Aquela cuja Alma é magma.
Instantes fugazes do oriente.

Servir o insípido
Torna a criação
Um progressivo vulto embaciado.
Da repetição não germina um caixão.

Friday, October 03, 2008

Mergulhar no Suspiro

O corpo está banhado no próprio corpo. Um mergulho para devastar as raízes, tornando a envolvência um perfume prateado transparente. Danço num suspiro, na gravidez da minha Alma, ardentemente, sem receio.

Tuesday, September 30, 2008

Cinzas

Olhos colocados sobre o dorso,
Olhos envoltos num poema;
Sentado o pó reintegra-se em imagem submersa
Dançando efémeras paródias;
Espalha-se na mão,
Povoando círculos.
Embriaga toques infinitos
Nas profundezas,
Sem que do altar vislumbre
O acordar do destilar.

É Outono no coração do concerto,
E escuto a cinza...

Monday, September 29, 2008

Folhas

As folhas gostam da chuva.

Regar multidões nas mãos
Questionando o barulho do furacão.
Não chegar ao suspiro...
Não aproveitar o retiro...

As folhas gostam da chuva.

Thursday, September 25, 2008

Ilusão da Neve

Tenho neve no cabelo, profunda e embriagada, metamorfose dum silêncio a descair sobre os ombros. Dentro deste conceito não recordo doutra sensação sem ser essa. Pluviosidade que marca a sensação da pele. Iludido, captei o estrondo deste descaimento. Iludido, arrastei o rasgo até ao íntimo. Iludido, tentei sonhar mais além. E dentro deste reflexo escrevo o indecifrável. Alongar o tímido olhar, desconstruído ou pautado num palco aguardado, com ou sem guarda, com mutação ou preenchido pelo preso toque.

Wednesday, September 24, 2008

Transparência

Membro composto por um osso, envolvido em hélice, dentro do qual a harmonia capta a disfunção do momento. O entristecer momentâneo chega sem perguntar a transfiguração do rosto. Acordar o despir ou talvez a natureza da própria fragmentação. Incógnito labirinto que da transparência transpira, que na Alma evapora.

Tuesday, September 23, 2008

Alçapão

Encontrei dentro duma viagem um alçapão acastanhado. Caía em mim recortes de aprofundar esse horizonte, de puder chegar a uma cortina onde pudesse despir uma miragem, ou simplesmente levantar o véu do esconderijo. Perguntei ao desconhecido rasgo o que haveria atrás do alçapão, mas a resposta não apareceu, nem a vontade do suspiro foi forte para ser acolhida.

Monday, September 22, 2008

Outono

Deambula a chuva sobre a terra orvalhada, e sobre o céu morram cantos que desfalecem na forma de gotas. O chapinhar sobre as rigidas folhas faz a melodia arquear uma brisa. Acolhedor festival Outonal rejubila o desassossego...

Thursday, August 28, 2008

Planalto Melancólico VII

Acordei dentro da montanha, no profundo vale, sobre as cores espalhadas do planalto. Cheira a pessoas com a alegria de fantasias, espirros de satisfação pelo reencontro com as ondas do perfume da terra. Lábios sedosos abraçam esta viagem, buscando o incontrolável sustento da razão. Desaguam rasgos de sentimentos, algures…

Monday, August 25, 2008

Planalto Melancólico VI

Intempestivamente o tempo muda; floresce neve na viagem para o inferno num manto encapuçado de serenidade a assaltar a linha do acolhimento. Guardo o sopro que acarinha a derrocada dos flocos, até a vertigem colocar o rasgo nas mãos. Arrecadado não chego perto das faíscas, nem da vista pego no molde do suspiro, nem do rosto acolho a paisagem. Resta a Alma que voa no planalto, desmesuradamente na saudade...

Thursday, August 21, 2008

Planalto Melancólico V

O repouso do fogo habita ao lado do sossego da paisagem, desabotoando o manto das árvores. Regresso ao voo das ruas que acarinharam a infância, circunscritas ao pormenor que os dedos esboçam a cada momento. Contactar as pessoas a perfurar mudanças, aliciar a vinda do vento sobre o rosto. Observar o decaimento da saia sobre as pernas, a inclinação da ribeira nas costas das folhas secas. Pecados da cascata, pontes entrelaçadas.

Sunday, August 17, 2008

Imperfeição

Mergulho de Lua profana a tristeza.
Os pingos perfuram o espírito
Ao sabor dançante do veneno...
Embalos que devastam a noite,
Sepultando o sorriso dos olhos,
Alimentando a imensidão,
Saciando a imperfeição,
Correndo pelo trilho da solidão.
Repletos corpos, vazias Almas...

Mãos escrevem a resposta!
Pés rabiscam a pergunta!
Vaguear incessante do ser submerso...

Thursday, August 14, 2008

Planalto Melancólico IV

O espairecer das aves chega ao planalto. O voo penetrante ilumina as sombras, rasgando o vento ao pedalar da sobrevivência, o sol ardente bate ao compasso do tempo esmagado pelas correntes. Estrondos anjos bailam na dor do canto melancólico, como se a vontade dependesse unicamente da saudade, dum sopro de notas sobre as folhas, do acolher sussurrante dos odores. Disperso Outono...

Saturday, August 09, 2008

Planalto Melancólico III

Existe sobre o planalto corpos espalhados, desconhecidos e ardentes pelo desejo que a vista alcança. Gigantes com mãos viajantes, anões do lar inflamado aconchegados, delicadas mãos resplandecentes em ambas as partes. Ouço os vazios nas ruelas, apertadas com o odor que escapa das cozinhas das casas, fumo dos céus a manjar a refeição embriagada. O repouso dança no ar, atribulado a pingar de saudade, sereno em oscilações perturbadoras. Progredir envolto num caminhar de fogo.

Wednesday, August 06, 2008

Tempo Infernal

A madrugada acorda divertida...
Um sopro de gemidos...
Umas letras esvoaçantes...

Gigantes a palpitarem sobre as pétalas estendidas...
Teias de veludo...
Aberturas da escuridão...

A dançante descoberta das asas...
A cor espalhada...
Alma vibrante...

Silhueta a temperar o tempo,
Ao ouvir o abismo infernal....
Longe...
Perto...

Monday, August 04, 2008

Planalto Melancólico II

O sentido do gemido repercute-se nas folhas da figueira, junto da porta à espera dos primeiros passos da manhã. Seu fruto sensual abre desejos de saborear a queimadura dum resvalar prolongado. A colecção da mistura das folhas, com pétalas diversas cria o ramo de borboleta. Festejar a natureza no jardim que circunda a casa, tirando o que a natureza possui para o recanto da Alma fervente.


Friday, August 01, 2008

Planalto Melancólico I

A pedra corre desmesuradamente através dos filamentos das ruelas. Pintado sobre o planalto as casas pingam, o vento rasga com delicadeza os cantos, e o calor entra com suavidade nas sombras. Um desmembrar tocante cobre o rosto, agora. Um corte de Alma impregnado, sempre. Escrever as fragmentações do chamamento cria um desalinhamento na pele, águas profundas a brotar uma melancolia bordada na tela. Construção suprema do sossego...

Thursday, July 31, 2008

Fole da Alma

São cortes da Alma decorada
Dentro da superfície rendilhada.
Jamais o som se ouviu tão trovejante
A escorrer para o altar verdejante.
Momentos secos, ventos ocos,
Viagens…

Pulsa diversificado o batimento
Estrondoso…
Arranca o alçapão o movimento
Estrondoso…
Eco espalha-se no vertimento
Estrondoso…

Gemem os portões do desconhecido
Num sufoco ávido do palpitar retido

Fole germinado, coração…
Sopro retalhado, escuridão…
Brilho enfeitado, mão…

Voa
Além
Voa
Para Além

Dentro
Da saudade
Vontade

In N.A.

Tuesday, July 29, 2008

Nostalgia

Anda a nostalgia a bater nos pés. Subo ruas, desço ruas, aninho a escuridão dos passeios nocturnos. Sinto os grilos a uivar com a doçura dos locais conhecidos. O mapa do céu verte horizontes do qual serve de manto ao meu corpo. Pedaços a pingar sobre a pele…