Pinto ao fundo as montanhas de neve, nas minhas costas é o recolho das brasas. As casas penetram o céu nas escarpas da encosta, sendo uma donzela a tecer a silhueta num pincel. Estão juntas a roçarem os sentimentos esventrados. Pele nua em tecidos banhados. A serpente moldada toca os brincos coloridos, solta os sinos para uivar para a eternidade dos sons. Os fios de cabelo deslizam como doces pedras no dorso da água, regando o meu seio, deixando o perfume das folhas nos Altares. Quando se escuta o sussurro dos murmúrios o coração bate e resvala para o tricotar da dança privada da natureza, um bater estremecido na delicadeza retardada de enlaçar o fragmento perdido, a pérola de entranhar.
Saturday, March 05, 2011
Tuesday, March 01, 2011
Avignon - França
A ponte que acaba no rio, que se afunda no abismo, recolhe as queimaduras do inferno. Ponho as folhas secas que sobram da arca no cabelo, consagro a moldura de um boneco de neve e espeto-lhe a navalha de sangue nos seus pecados. Escore o sangue cheio de veneno para suavizar a sede do poder dos cegos. Cavo uma sepultura de neve, enterro-me num repouso ardente. Permaneço o peregrino de unhas negras que germina no frio da Alma ancorada ao trilho amaldiçoado dos galhos dispersos. Lapidar o corpo perante o destino, banquete estendido para jamais ser extinto pelos homens.
Saturday, February 26, 2011
Floresta Negra - Alemanha
Sinto a densidade entranhar meus poros, os troncos a semear os meus pés de flechas prateadas, a vertigem de procurar o abismo das sensações. Elevo a água aos céus, o fogo ao corpo, deixo o pousio rebolar no meu interior, um assobio vulcânico de condensar os gemidos nos ecos prolongados dos sussurros. Perco-me sem me perder, afundo-me na escuridão num pestanejar enlouquecido. Propago o som pelas montanhas, pelo arvoredo que esconde os tesouros, rodopio enquanto escuto os pássaros a fazer a loucura de se abraçarem nos galhos sedutores.
A entrega procura o murmúrio incerto, fonte que faz brotar o escuto de permanecer resguardado, sem ser olhado mas estar a ser sentido.
A entrega procura o murmúrio incerto, fonte que faz brotar o escuto de permanecer resguardado, sem ser olhado mas estar a ser sentido.
Monday, February 21, 2011
Gutenfels - Alemanha
Nas entrelaçadas correntes do Reno o devaneio faz esculpir o desejo de regressar à delicadeza. Estas paisagens são fogueiras que aquecem o coração, vigiam o homem para ele não cair na tentação de fugir para o paraíso dos Deuses. Enquanto os remos sulcam o vento, as margens atravessam as cinzas das armaduras, fortalezas fundidas no olhar repousado no horizonte de fogo. Abre-se uma janela, tem-se o deslizar contínuo, a promessa anunciada de ser engolido por um remoinho de prazeres.
Sinto o vinho do Douro a estremecer nas veias quando navego o corpo no afogamento da sensibilidade. A semelhante a aproximar o devaneio, subtil forma de interiorizar a casa que habita em cada um de nós. O esplendor renasce na germinação do fluxo.
Sinto o vinho do Douro a estremecer nas veias quando navego o corpo no afogamento da sensibilidade. A semelhante a aproximar o devaneio, subtil forma de interiorizar a casa que habita em cada um de nós. O esplendor renasce na germinação do fluxo.
Tuesday, February 15, 2011
Kinderdijk - Holanda
Os ventos acarinham tempestades descontroladas, explosões que movem as pedras, produz o pó do vagabundo inconsciente. Captar o invisível para desenhar movimentos subtis no ar. Somos pequenos perante o gigante, somos ainda mais pequenos perante a agonia de tentar voar. Fico na terra, olho para o céu, Amo as cavernas, tempero a água com o toque colorido de desvendar a palpitação. Se o vento quiser sou levado pelo esgotamento, pelo destino do ciclo infernal. Se as hélices rodassem mais, tanto que montados nelas levasse os corpos, chegar à Lua, provocar um fogo-de-artifício mágico, remoinhos de danças pelos céus. Resta abraçar o deslocamento embriagado para sufocar o deslizamento dos retalhos aglomerados.
Wednesday, February 09, 2011
Paris - França
O mistério aglomera-se em sepulturas nos recantos mais escondidos. Fujo pelas saliências, abro crateras, violo o silêncio para sentir o mais íntimo sossegar da solidão. Gosto de ser embalado pelos devaneios do tempo, longe do caos que morra aqui ao lado. A luz verdadeira da pedra ardente, do osso de marfim, dos fios de cabelo que cria perfis de demónios na minha mente. A escrita rasga as fundaras num salpico vulcânico, afundando o inferno, naufragando a pauta no meu rosto, no retrato de fogo.
Solenemente estremeço ao entregar-me, ao absorver a lentidão do pousio. A face do meu rosto beija-me até ao limite do impensável. Resta dilacerar o EU no cântico da nudez demoníaca.
Solenemente estremeço ao entregar-me, ao absorver a lentidão do pousio. A face do meu rosto beija-me até ao limite do impensável. Resta dilacerar o EU no cântico da nudez demoníaca.
Friday, February 04, 2011
Monte de Saint-Michel - França
Muitas vezes dá vontade em ficar enclausurado numa ilha. A peregrinação de ficar isolado, suster a respiração do mar na crença de soprar o infinito. O monte eleva-se agasalhado ao céu, impregnado ao inferno, onde os ecos se afundam, onde se pode refugiar os medos. Trilhos enrolados preenchem o ninho dando ofertas aos recantos mais escondidos, o cálice embriagado. Deixo brotar a semente do meu corpo no manto da união entre o céu e o mar.
Sunday, January 30, 2011
Loire - França
Nos castelos existem espíritos de outros tempos que sentem as masmorras como um estado ceifado da Alma. Apodera-se o Ser até êxtases de pigmentos presentes a viajar pelo passado, a serpentear as labaredas da caça. Cai o interior fúnebre no regaço de restaurar o Ser na sua intimidade. Aprecio os salpicos da virgindade em cada ranhura que existe, escuto o vento majestoso assobiar nas teias mostrando o espelho das funduras, um palmo de repouso. Consigo construir nos meus dedos as torres que chegam ao céu, e fazem dos seus espaços o rio de sangue que derrama a esperança de enlouquecer. Fortaleza contaminada pelo veneno do renascimento.
Wednesday, January 26, 2011
Toledo - Espanha
Busco a marulha que envolve o ninho, escalo a mulher que orbita no meu âmago. Sou o reflexo vulcânico dos temperos insanos. Cavalgo no interior de mim, selvagem ardor de serpentear o veneno de infiltrar, de procurar as masmorras e ficar com o corpo marcado de pétalas.
Gravitar em torno do rio, das falésias, das muralhas, das catedrais… Sentir o espaço denso dos trilhos, esperar que do vaso pendurado na parede descaia a dança dos últimos pingos da levitação. Perto, muito perto, escuto o ciclo do vento a tornar o abrasamento a forma mais fácil de rodopiar. A envolvência da solidão do moinho.
Gravitar em torno do rio, das falésias, das muralhas, das catedrais… Sentir o espaço denso dos trilhos, esperar que do vaso pendurado na parede descaia a dança dos últimos pingos da levitação. Perto, muito perto, escuto o ciclo do vento a tornar o abrasamento a forma mais fácil de rodopiar. A envolvência da solidão do moinho.
Friday, January 21, 2011
Picos da Europa - Espanha
A neve calca os picos e desce no seu vestido. As cavernas rasgadas nas rochas afunilam o Ser nos desfiladeiros, onde lá em baixo a água gelada encanta as margens com música fervente. Lagos a recolherem o sumo, a fazer o reflexo do céu na terra.
A armadura dos guerreiros tem aqui o seu castelo da memória, a resistência para depois conquistar, cavernas onde as fogueiras gemiam com as espadas cravadas nas rochas.
Sente-se a vertigem das falésias nas cruzes, a miragem dos estreitos caminhos a apoderar-se dos abismos. A alucinação tempera as cicatrizes das mãos, encruzilhar o infinito numa sequência de gritos desvairados. Sopro para ir além das margens, subir em remoinhos, até que o vento leve num destino o vislumbrar da própria profundeza, o olhar imaculado.
A armadura dos guerreiros tem aqui o seu castelo da memória, a resistência para depois conquistar, cavernas onde as fogueiras gemiam com as espadas cravadas nas rochas.
Sente-se a vertigem das falésias nas cruzes, a miragem dos estreitos caminhos a apoderar-se dos abismos. A alucinação tempera as cicatrizes das mãos, encruzilhar o infinito numa sequência de gritos desvairados. Sopro para ir além das margens, subir em remoinhos, até que o vento leve num destino o vislumbrar da própria profundeza, o olhar imaculado.
Sunday, January 16, 2011
Fisterra - Espanha
O mundo acaba onde o inferno começa. Por mais que se caminhe a esperança perdura como fogo nos anéis da liberdade. O estado vagaroso do tempo a escoar no por do sol, a afundar o sol, incêndio inalcançável mas que aquece o coração nas profundezas do mar. As ondas penetram as rochas, batem com o carinho de lá adormecer. A união do infinito clama pelo Ser num descanso sepulcral, na pujança estremecida de envolver o destino na enseada do fluxo. Saboreio o Altar numa bênção rendida. Não sei nadar mas sei absorver a essência de espremer as ossadas, juntar as pedras para construir a embarcação. Consigo escutar o assobio dos trilhos, bebo da fronteira o lugar das chamas. Repouso o Ser no batimento do voo.
Thursday, January 13, 2011
Porto - Portugal
Foram muitos anos nesta terra onde se sente o abraço do rio Douro, nevoeiro empolgante das manhãs submersas a afunilar até ao mar das ebulições. O estrondo das chuvas fez sempre brotar vielas para gemer com pureza o destilar. O antigo mistura-se com o moderno num pulsar vibrante, cheio de intimidade. A saudade penetra a rude saudade com delicadeza, a ecoar vozes nos tecidos das janelas, cadência dos passos nocturnos a dedilhar o apertado ardor
Calcinar e desbravar a sensibilidade em múltiplos voos, em sistemas encadeados e perfurantes. Acorrentar o tempo nas ruelas, jardins, nas pedras aninhadas; o cântico máximo de entranhar.
Calcinar e desbravar a sensibilidade em múltiplos voos, em sistemas encadeados e perfurantes. Acorrentar o tempo nas ruelas, jardins, nas pedras aninhadas; o cântico máximo de entranhar.
Tuesday, January 04, 2011
Infinito
Os Anjos ficam, os Demónios vão. São destes últimos que o fogo procura o seu destino mas que jamais saberá o quanto estará perdido no monte do caos que existe no baloiçar do infinito.
Monday, December 20, 2010
Tuesday, December 14, 2010
Parabéns!
As folhas Outonais fazem parte do coração, beleza intimamente ligada ao partilhar dos odores do Ser. Quanto maior for o manto, mais as profundezas se esculpem com ardor. A provocação da natureza seduz o fluxo interior, torna-o a invasão da essência, uma pétala criada para descobrir o mistério tatuado. A cordilheira das cores é fumo que envolve os galhos despidos, da mesma maneira que cada Ser se perturba e se sacia dos enigmas. É preciso dançar, dançar com a harmonia e deixar os bancos vazios para eles sentirem a energia da liberdade.
Agora que cheguei à velhice tenho que continuar a aprender com as folhas, e fazer delas o fogo para queimar o tempo.
PARABÉNS DARKVIOLET!
Agora que cheguei à velhice tenho que continuar a aprender com as folhas, e fazer delas o fogo para queimar o tempo.
PARABÉNS DARKVIOLET!
Tuesday, November 30, 2010
Licor Mágico
No Universo do Outono existe o odor único que se implanta dentro do Ser e o absorve em tempestades incomparáveis. O fluxo a vaguear, sublime respirar; sustentação das raízes nas veias, o sentido insaciável de permanecer. Cada repousar, cada movimento, cada olhar; a contemplação do fogo a espalhar-se em recortados segmentos de folhas. Sente-se o brotar da terra, da humidade perturbada, dos galhos a ficarem nus, uma mistura que preenche o Ser até à exaustão. E de vez em quando o assobio dos pássaros recoloca a virtude no devido lugar.
Talvez um dia consiga uma foto dalgum pássaro junto dum cogumelo, a pintar a magia dum licor enfeitiçado, num estado delicado.
Talvez um dia consiga uma foto dalgum pássaro junto dum cogumelo, a pintar a magia dum licor enfeitiçado, num estado delicado.
Monday, November 15, 2010
Nirvana
O tempo pergunta ao vento sobre o seu inquieto sussurro. Não se pode dizer que seja um murmúrio audível, um rodopio enlaçado na profundeza dum sotaque, mas um qualquer olhar perturbaria o equilíbrio fúnebre, por isso a dança é feita de forma inquieta. Esconder os mais íntimos pormenores é um estado incalculável. Talvez a prisão dos sentidos seja a libertação, um reino do qual os fogos se incendeiam sem perguntar o seu molde de saciar. Se a lima resgata a rudeza, a suavidade alcança a metamorfose, o Ser desaba fundindo a proximidade num fio invisível. Cor tricotada da evolução fica submersa, longe do apocalipse, longe da própria reconstrução.
Quando as folhas encaixam carruagens de cor, a sua pauta desfila a função do chamamento. Ecoar o toque cego da torre é insanidade, subir nela é embriaguez, entrar nela é êxtase. E se for de lá que se pode entranhar o reino então o silêncio é o piar dos banquetes, o altar primeiro do sentido. A explosão é o carvão dos vales, inferno silencioso do labirinto das árvores, terra nas chamas do Outono. O sabor faz parte da memória, resguardado ou apenas entranhado. Não se sabe o âmago dos feitiços que o sussurro provoca, mas o que isso importa?
Quando as folhas encaixam carruagens de cor, a sua pauta desfila a função do chamamento. Ecoar o toque cego da torre é insanidade, subir nela é embriaguez, entrar nela é êxtase. E se for de lá que se pode entranhar o reino então o silêncio é o piar dos banquetes, o altar primeiro do sentido. A explosão é o carvão dos vales, inferno silencioso do labirinto das árvores, terra nas chamas do Outono. O sabor faz parte da memória, resguardado ou apenas entranhado. Não se sabe o âmago dos feitiços que o sussurro provoca, mas o que isso importa?
Saturday, October 23, 2010
Terço
Enquanto a paisagem se desdobra é possível observar o passageiro diurno da folha solta. O pormenor é o seu ponto de fuga, marca atingível pela metamorfose num corrupio de depressões. Afunda-se o que é envolvida pela crença, limiar da fronteira para o redor desabar no dedo afiado que rasga o passado de forma imperdoável. Não há freiras para suster este apocalipse, só o ciclo esboçado no ar pelo terço o consegue fazer saciar o desespero interior que reina no Ser. Existe sempre o resguardo na solidão para aninhar a tenda de silêncios, um caos urbano da fé e da desordem. As duas juntas salpicam o poço até chegar ao momento do adeus em fúria.
Sunday, October 17, 2010
Mensageiro do Inferno
Inadvertidamente enlacei o sufoco da respiração na escuridão completa da gruta. Não tenho para onde olhar, nem a sombra me faz companhia, nem a companhia constante do zumbido nocturno salta para dentro das minhas veias. O pesadelo ecoa como um estrondo; não tenho para onde fugir; ninguém me pode libertar desta prisão. A terra faz de mim seu escravo, tenho-a dentro do Ser a germinar as sementes da esperança. Fujo sem puder fugir por entre os corredores da minha mente, disponho as palavras dos livros num sossego despertar. Tudo se alimenta dum caixão amaldiçoado, onde os olhos se devoram, se rebentam até à exaustão. Posso sentir a explosão fragmentada da luz no labirinto das mãos, forças que se fundem e arrancam o sustento do licor, que preenchem as raízes.
O topo do inferno aglomera-se mas o ruído ecoa, a esperança expande-se a cada momento em cordas invisíveis de expectativa à procura do último resguardo da sobrevivência. O deserto tem poços desconhecidos perante as miragens das ossadas. Sufocar ou Amar…
O topo do inferno aglomera-se mas o ruído ecoa, a esperança expande-se a cada momento em cordas invisíveis de expectativa à procura do último resguardo da sobrevivência. O deserto tem poços desconhecidos perante as miragens das ossadas. Sufocar ou Amar…
Sunday, October 10, 2010
Templos Modernos
Os relâmpagos abrem a clareira dos cegos. Todos temos alturas em que a visão da Alma fica nítida e a contemplação da mistura torna-se um exercício de pureza. Pode-se elaborar as tarefas segundo fogueiras, abrigados do fogo segundo o fluxo da corrente do rio. Sentir a suavidade dos momentos, nos simples devaneios da insanidade.
Quando se estremece no ninho os labirintos escalam a pele dos corpos, sossegando a solidão. Este estado aglomerado por partituras ganha sua forma nos tortuosos recantos da imaginação. O Ser completa-se por etapas indefinidas, regado por soluços de varetas improvisadas. Enquanto que a respiração galopar o eterno será a chama dos relâmpagos, viagens ao som do rugido das alucinações.
Nunca se pode menosprezar o renascimento, porque ela é sempre feita de vontade, chama da qual se tem o sentido do Ser dedilhado no percurso. A vontade e a energia são irmãs gémeas, andam juntas, por isso quem tem vontade tem a energia para misturar Seres...
Quando se estremece no ninho os labirintos escalam a pele dos corpos, sossegando a solidão. Este estado aglomerado por partituras ganha sua forma nos tortuosos recantos da imaginação. O Ser completa-se por etapas indefinidas, regado por soluços de varetas improvisadas. Enquanto que a respiração galopar o eterno será a chama dos relâmpagos, viagens ao som do rugido das alucinações.
Nunca se pode menosprezar o renascimento, porque ela é sempre feita de vontade, chama da qual se tem o sentido do Ser dedilhado no percurso. A vontade e a energia são irmãs gémeas, andam juntas, por isso quem tem vontade tem a energia para misturar Seres...
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