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Tuesday, July 14, 2009

Cego

O Cego na sua “opacidade” cria imagens da harmónica, nota recombinada com o fulgor das chamas que passam do incolor para cores perfurantes ao olhar. Existe na cegueira a formação moldada de fulminantes paisagens, quedas de água gemendo o sopro do dedilhar a tela na lâmina de um acolhedor madrugar, incessante visões do apocalíptico perfumar da essência. A abstracção dos sentidos rola no interior da incógnita fragrância, suspenso na fronteira de captar o invisível dentro do oculto.
A solidão catapulta alucinações distribuídas em mantos aleatórios, pintadas pela escuridão enturvada do fresco cálice. A mão segura firmemente o horizonte, e todo o Ser mergulha num ápice na construção do caos; imagem flutuante do Cego, mágico pernoitar da eternidade no amadurecido néctar da captação insaciável. Em tudo isto todos os Cegos fazem seu rendilhado esboço.

Cego não vê; Cego semeia, rega, colhe a Alma…

Bonsai Por Walter Paul

Saturday, November 22, 2008

Solidão

Ia ficar com uma mão livre quando estagnei o corpo no céu. Meio atrapalhado rocei os olhos um no outro, deixei cair as mãos numa lufada de frescura. O entrelaço gemido arregaçou a sua preguiça, roçando o horizonte, resvalando o destino. Não entendi se a imaginação das folhas estaladiças penetrou ou não o véu do meu rosto, sei que as frescas luzes se misturaram como raios oblíquos, a desdobrar as brisas nubladas, cruzando a rouca solidão do caminhar nu das árvores.
Acolhi dos rudes desertos a força das subtilezas, salpicado da vegetação formado pelas correntes. O desaguar do labirinto foi-me pintado no cume das melodias. Cortei a retalhada tela, a formar folha atrás de folha, conjunto de levezas. Entretida Alma tocou a face, desconcertante nota de Outono na semente do milho...

Friday, February 16, 2007

Teias de Saudade

O transparente lago molha o cabelo
Saudade...Mistura...Licor...

A esperança das estrelas
Nas camadas das teias,
Cai a lágrima...

Arranho a sombra das fragas
A deixar os relâmpagos arderem
No ventre das folhas secas...

O percurso das vibrações
Estica o robusto olhar...
Sobe o tom, bate o coração...

O medo treme,
Impotente, estrela cadente...
“Ninguém está aí...”... Aqui...



....
I am the mistress of loneliness,
my court is deserted but I do not care.
The presence of people is ugly and cold
and something I can neither watch nor bear.


So, I prefer to lie in darkness silence alone,
listening to the lack of light, or sound,
or someone to talk to, for something to share ...-
but there is no hope and no-one is there.



Sopor Aerternus - No-One is there
(Música em baixo)




Último olhar pousado nas mãos...

Sunday, February 04, 2007

Brutal Cal

Capítulo brutal.
Inacabado ao suspiro.

Por dentro do silêncio
A massacrar os lábios da nudez
Desfilo nos húmidos pedaços.
Num rasgo do desfiladeiro
Ofusco o som cercado…

Na cela da solidão
Ergo a invisibilidade
Da transparência de fogo
Até ao portão de grades vendadas…

Subo nos pés da geada
A gemer de prazer…
Estremeço com espinhos cravados.
Do mal fatal dou uma foda aos sentidos…

Escorrego no meu cabelo estendido na mão
Onde cresço ao sabor da Bruma.

Thursday, August 03, 2006

Acho que é tempo de correr atrás do sopro da solidão.

Wednesday, June 28, 2006

Dança Pureza

Tenho o seio de janelas,
Abertas no rio de pétalas,
No suspiro do cansaço,
A esfregar o punhal de lâminas...
Viro o rosto de encontro
aos vitrais de chamas,
E abro o coração ao resvalar
Da pureza...
As minhas letras voam
Nas florestas negras da minha solidão...
Dança Demónio...

Wednesday, June 14, 2006

Mia Couto

"Primeiro, perdemos a lembrança de termos sido rio. A seguir, esquecemos a terra que nos pertencera. Depois da nossa memória ter perdido a geografia, acabou perdendo a sua própria história. Agora, não temos sequer ideia de termos perdido alguma coisa."

( O barbeiro de Vila Longe )

Mia Couto - O outro pé da sereia

Tirei estes excertos de frases do último livro de Mia Couto, que apenas desfolhei algumas páginas. Não é que concorde com as frases, mas há algumas palavras nestes fragmentos que me dizem algo, como por exemplo: "a lembrança", "o rio", "a terra", "a memória" e "perdido". O essencial do discordar é que a única coisa que importa é se a essência é pura ou não. Se for pura então o rio corre para algum lado, mesmo que seja para a solidão...Enfim...

Friday, June 02, 2006

Brotará

Vou fazer uma exposição de arte. Irei esculpir a minha presença em tons de roxo, do tecto cairão sinos, do chão brotará pó...Não espero ajuda de ninguém para tremer de prazer, nem porventura um olhar fugidio de espanto. A solidão do quadro rejuvenescerá as gotas de água, pautado naquele sentimento da escuridão de luzes. Pingará sons de orvalho nesta tela, embalado numa lua cheia.

Thursday, May 25, 2006

Monte de Peugadas

Sentir a Solidão raramente foi algo que me preocupou.
O que me inquieta é ter alguém ao meu lado.
Há sempre peugadas na Solidão.

Wednesday, May 24, 2006

Thursday, May 11, 2006

Dúvidas

Não sei...Porventura...Talvez...Mas...

Os troncos abrem-se,
No calcar dos pés feitos de pó...
A estaca penetra,
No derramar da seiva feita de pó...
O cálice degolado
Esfrega-se no pó...

O olho cai na solidão da tinta...

Wednesday, April 05, 2006

Pedaços

Cada chuva invade a Alma no suspiro quente da memória. Não posso estar onde quero, posso somente estar no passado. Crio ramos onde o tronco já está, sinto falta daquilo que sou, moldo o futuro. A pureza de ser estranha-se, o ser contrário apaixona-se. Expressão da leveza, de arrancar o coração dos bens materiais, soa a não existir. Prefiro este soar, este bater forte, este molhar de silhuetas. A solidão faz parte dos cantos do quarto, da cama donde caiem lágrimas, do tecido de vida. Tudo se mistura para albergar emoções. Já não consigo viver sem elas, nem sentido faz viver com elas. Cultiva-se a terra arável, da dança molhada da ausência...Amo...

Sunday, April 02, 2006

Teia

O meu colo de saudade
Banho a solidão dos momentos...
Teia de vida, sopro de sombras...
Corpo molhado, desfolhado, desflorado...

Cruel aspecto, delicioso...
Tentação de fundas paragens...

Desejos infinitos da essência,
Da dança de fogo,
Rebentos de viagens...
Na berma da pureza, fortaleza, leveza...


Tuesday, March 21, 2006

Página branca

Encontrei minha página em branco no canto da cama. No esqueleto das pontas entreabri as reticências, rasguei as sombras, e olhei cada milímetro de espaço que molhava os lençóis. Vislumbrei o cavalo de dorso doce na miragem da folha em branco. Lacrimejei, de gota em gota à espera de ouvir o casco a levar-me pelo horizonte de silhuetas, a dobrar as crinas chicoteando o destino. O som de longe fugia para o fundo da cama, num cruel abismo. Uns passos largos de folhas em branco...

Saturday, February 11, 2006

Raíz mutilada

Ossos mergulhados na solidão
Duro encontro das ondas,
Esqueleto dobrado com a mão
Vertigem amputada nas sondas.

Cada seta despida,
Cada fragmento desejado,
Alimento pautado, delgado,
Raíz mutilada, comprida.

Convalescer da improbabilidade,
Perder a terra do prego esticado,
Espalmar a agitação,
Estilhaçar a paixão retida.

Wednesday, February 08, 2006

Parto, Reparto, Sulco

Reparto a alma no gosto...
Parto no ouvido das sereias...
Reparto a vista no horizonte...
Parto em pegadas de solidão...
Reparto meus vasos de flores pintadas...

Parto, reparto, sulco...

Sulcos de marés desviados...
Sulcos de sintomas que rasgam...
Sulcos das mantas molhadas...
Sulcos a galgar o resto...