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Saturday, July 11, 2009

Pó Virgem

O virgem pó encontra-se espalhado pelas cortinas do tempo, aberto aos dedos que fazem ranhuras com sabor a esboços. Da bancada desta dança o corpo desfaz-se num banquete esculpido com o ardor, melodias de portas a ranger, estrado a escoar os murmúrios da essência. Mais perto do inalcançável o cometa deixa rastos de fogo, salpicos de pós, grãos da simplicidade aberta ao rascunho do coração, pureza da qual a mordedura de sorrisos canta o virgem pó.

Galeria de Sandro Andretta

Saturday, December 16, 2006

Sopro

Gelado, quebrado, vidrado...
Bálsamo de tentações a fumar na bruma.
Torcido, entretido, esquecido...
Armazenar pigmentos nos raios lunares.

Retornais às lanças de círculos, aos pesadelos
Da busca incontornável do pó...
Sentis a vontade ao cair das tentações,
E aí levantais o sopro das falésias...

As marés tocam os pés…
A minha saliva arde…
E entretanto faço tapetes projectados nas sombras
Num Crucifixo de gelo dissolvido...

Thursday, November 23, 2006

Fantasias

Dobradas no dorso do céu...
Rasgadas em paisagens regadas...
As lanças nubladas florescem pecaminosas...

Ruínas de arpões encapuçados...
Repelentes olhos, armação de pó...
Garras dum caixão de perfume...

Fantasias, antiguidades, cor de ventos...
Camadas sobre mundos escondidos...
Suavidades em terramotos...

O som olvida a memória
De braço limado no véu...
A leveza fugidia...

Thursday, November 16, 2006

Gritos

Olhei para trás, e o que vi atrás de mim? As cinzas do meu olhar ou as peugadas da minha sombra? Talvez somente o deslizar duma nota musical. Aquele som de cabelos molhados, longos, firmes, pousados na neblina duma distância limitada pelo pó que se levanta. Bracejo as mãos no ar, virando, contornando a espessura desta intensidade, densidade de grãos, aglomerados de poeira das vivências que devoro na sombra dos cabelos. Não deixo cair o sopro do vento, pego nele com as letras do esquecimento e faço a minha tela de sedimentos soltos. Por isso olho para trás, para dar mordidelas sanguinárias, como se estivesse a degolar minha Alma, e no momento de sugar o vazio preencho-me de nevoeiro. Volto ao período das trevas num cavalo de tinta negra... Isto é o meu mundo, que foi feito para ser devorado pelos suspiros de gritos.

Thursday, November 02, 2006

Últimos Poemas Esquecidos De Outubro III

Vidente

Sacrificaram a intensidade de tragédias
E nas palavras dispersas, rasgaram o vento
No meio de trovões, punindo os dias
Que se perderam num sopro, num alento...

Da noite deflagram fogueiras esqueléticas,
Areias quentes sentidas na moribunda sombra
A enroscar, a contorcer, a esquartejar, esquizofrénicas
Nuvens que se escondem na penumbra.

Os picos singelos vestidos de mancha quebrada
Furam pelo tempo, fardados...Aí ouve-se
Algo....O alisar contraído do vidente...

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Constrangido

Os bordéis são vossas tocas.
Encheis de álcool os excrementos
Em volta de remoinhos,
Engolindo falsos risos.
Do beber trocais
Para do nada fugir,
Para um baú oco com remos ir.
Até que incendiais o fogo,
Humilhais a indiferença
E no Outono tudo vai ver a lareira,
Sem saber onde ela está...
Descalçais a superfície da casca,
Mordendo num toque fugitivo
Ou num abcesso ridículo do olhar...

Fico constrangido dentro da futilidade
Estando felizes, sossego...frio e gelado...

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Ancião Abandonado

Andais a sepultar flores
Em cima das campas que não são vossas;
Acasalais nas fendas das dores
A perdoar humilhações nossas;
Amaldiçoais arder nos vitrais
Por dentro de Almas seladas;
Purificais trocas em poços infernais
Pela memória das badaladas...

Cadáveres gigantes engolirão as cruzes
Do pó empilhado, a seduzir
O ancião abandonado.
Nada restará além da dança das colinas,
Na lembrança esquecida das unhas mutiladas...

Tuesday, August 22, 2006

Sopro

As trepadeiras humanas
Tilintam com pés descalços...
Ardem nas cinzas,
Como pó a olhar
O vazio das sensações...

A Alma sente-se
Aninhada dos seres humanos.
Cada vez mais longe.
Ainda tento fazer pingar
O orvalho dos filamentos
Das nuvens...
Uma brisa, ou talvez
O som do tormento...

Sorrio nesta paisagem...
Desarrumo a máscara abafada
Com o sopro de abismos...

Sunday, July 30, 2006

Dó sem Pó

Longe do uivo da minha pele
Borbulho o fantasma da Alma
Rasgando cada cicatriz feita em cruz,
Polindo o cálice da Lua
Na língua do vampiro...
Objectos, Sons, Miragens...
A sombra do esquecimento
Nas escadarias dos violinos ,
Pego na tatuagem de pó
E engulo a saliva sem dó .
Devoro a degolar-me
A teia do reflexo
Dentro de labirintos de folhas secas,
Fora do paradoxo do abismo infernal
O olhar fica distante, escondido...

Friday, July 14, 2006

Misturo

Não mudei. Não tenho por onde mudar.
(Até tenho os lábios abertos)
Sento-me na cadeira
E observo como o pó se espalha debaixo dela.
(O abismo tem dentes afiados)
Rodopio os olhos de encontro à carpete
Rasgando as cores
(Tintas de fumo)
O chão cheios de pincéis Pedem a mão
(Penetro o vento)
Duas cores vêm à memória...Duas...
(Misturo o céu)...

Sunday, June 25, 2006

...

Pó a voar sobre vento sem destino.
Onde tens as forças Demónio? Onde?...
Vejo-te a cair nas falésias e a segurar cada pedra solta...
Onde guardas a vontade de ir?
Olha para mim Demónio. Vês-me a sangrar?
Pendura-te no vento, no cabelo de espinhos...
Sangra...Sangra...Sangra...
Agora o que sentes? É isso que queres de ti Demónio?

Friday, May 26, 2006

Tinta

Este calor está a dar cabo de mim. Não consigo reflectir, o raciocínio dilui-se no ar seco, o pó levanta-se sem que o vento sopre. Estar afogado em espirros constantes, num som que faz eco, uma reprodução que rasga os ouvidos. Uma tela que sai do labirinto, para que na escuridão se afogue em sentimentos. Sai das mãos a essência, a tinta, o pó...Que venha a noite para subir as emoções das sensações suaves.

Tuesday, May 23, 2006

Flutuar

Fixo o olhar nas palavras,
No rosto torcido da saudade...
Longe dos cabelos perfumados,
Encosto-me ao fogo...

O silêncio flutua,
Não posso olhar o vazio,
Não posso tocar o beijo,
Escolho a escuridão da Lua...

Sei da lei que serei rei...
Dum pó de sangue,
Da água com perfis de escravidão.
Pescoço com osso...

Monday, May 22, 2006

Pó Branco

Desvio as cortinas, sinto as mãos...
Abro a janela, vejo um poço...
Os olhos cruéis despedaçam-se
Em veias de raios...

Profundidades de madeira sem sentido,
Escapo de visões fúnebres...
Palpitar, degolo-me de prazer
Exaltando as raízes de nuvens...

O pó branco desce para se
Agasalhar nas paredes húmidas,
Segrego o isolamento,
Da pureza florida...

Thursday, May 11, 2006

Dúvidas

Não sei...Porventura...Talvez...Mas...

Os troncos abrem-se,
No calcar dos pés feitos de pó...
A estaca penetra,
No derramar da seiva feita de pó...
O cálice degolado
Esfrega-se no pó...

O olho cai na solidão da tinta...

Thursday, May 04, 2006

Desprender

Bato nas nuvens do desespero
A recolher os gritos
A atormentar o meu jazigo...

Engulo segmentos ocos de mim,
Pérolas de pó,
Madeira molhada que não arde...

Os meus cabelos secos desprendem-se
Na afeição do desassossego...
Resta morder a cavidade...

Resta-me sentir o que sou...Ruínas...

Monday, April 17, 2006

Rio

A alma arde no Inferno.
Nas cinzas do sangue,
No jazigo do pó,
A morte abre as grades...

Tempo moído no cálice.
Da pureza do ventre,
Do arrancar supremo da vida,
A sede das pedras clamam uma gota...

Amor dos gritos das veias.
Pelas amarras dos espinhos,
Pelo vinho da incapacidade,
Triunfo da virgindade transparente...

Sunday, April 09, 2006

Gota

Cristais fundem-se no ar
A norte da bruma celeste,
Grito de força a rasgar
A morte da melancolia agreste...

Peitos de véus penetra
O ardor fúnebre do olhar,
Deambulando nas notas de jazigos...
Penduro as asas de sangue
Na lâmina da escuridão...
A magia roça o abismo
Coberto de escamas a arderem

Piedade enterrada no pó
Retalhar o tormento
Molestar as veias de pó
Pingar o alimento

Sede...Escorre...
Uma última gota...