Wednesday, September 30, 2009

Carroça de Cordas

As portas estão manipuladas por cordas invisíveis, daquelas feitas de licores roxos envenenadas, tão saborosas que se abrem com a ventania do dorso das escadas. Incompreendido pela memória, o abre-latas chove poeiras sobre o papel, som entretido aos rascunhos das sementes do além. A carroça prepara-se com a tremenda vontade de a encher com magias, e com aquelas estaladiças divagações que fazem os sorrisos serem o palco dos voos saltitantes.

Imagem tirada da net

Tuesday, September 22, 2009

Ferve Outono

Sopro das folhas despidas corre no manto das mais belas cores. Dentro delas existe os fumos dos remoinhos a fazerem danças, badalam os sinos arrepiados na cordilheira, onde a rudeza dos seus vultos amaciam o gemido da leveza. Nos rasgos do Outono ferve sempre o odor enlaçado dos sons virgens, a água penetrante rega o último sumo das frutas, enquanto o licor das pétalas geme dentro dos troncos nublados de orvalhos a sua vontade de enlouquecer por entre cogumelos a esventrar o molhado saltitar dos pássaros.
Esta essência estremece o vento até ele sulcar rabiscos da ribeira por entre colinas desconhecidas aos olhos, mas entranhadas aos sentidos. Na mistura aponta-se para as estrelas para elas deixarem cair seus filamentos no perfume da Alma, no caos das silhuetas.

Tuesday, September 08, 2009

Oxigénio para o Génio

Pegar fogo na fotografia do desconhecido, pendurar as cinzas no orvalho da manhã incógnita. Enquanto se ouve o repouso dos pássaros no horizonte o mergulho da aurora canta melodias, reunindo cada pétala do orvalho soletrado. Parece o ciclo dos fogos:

Oxigénio para o génio
Destilação para a oração

Oxigénio para o génio
Destilação para a oração

Oxigénio para o génio
Destilação para a oração

Wednesday, August 26, 2009

Vinho

A adega das chávenas olha o corredor das tábuas estaladiças. Sente-se no meio do orvalho o sentido tremido do licor, saliente na lareira do piano pingos de tempestade andam soltos, num destino com a misericórdia das asas flutuantes. Sem pestanejar o vento soletra a cegueira nas janelas dos livros, quadrados envidraçados de vitrais, véus em mantos roxos a levitar nas células. Embriagado o odor esperneia na madeira, enquanto o néctar tem sabor das ampulhetas dos demónios.

Foto daqui

Wednesday, August 19, 2009

Sopro da Figueira

Existe um sopro dentro do odor da figueira, interior íntimo da corrente inalada no sufoco do tempo. As memórias dos insanos cantam com as cordas esticadas dos figos a canção dos dias afogados. Cada gota a ser sorvida num intemporal de raios, mas num instante de pés para o ar, a ampulheta rebenta na caverna, e silencia o seu desassossego. Parece o milagre das tentações a ser esfaqueado no nevoeiro onde pinga o sangue, mas nos 31 açucares espalhados na Alma existe a inquietação do Outono, por isso mais vale vestir-me com as folhas, rasgar o inferno das peugadas.
Os frutos sabem atar-se uns aos outros de forma divina, os Homens é que não sabem seguir suas essências ao limite das suas vontades.

Imagem retirada da net - Autoria desconhecida

Thursday, August 13, 2009

Nocturna Paisagem

Como são deliciosos os cristais com os chinelos nos pés. Até no consultório dos malucos se consegue saborear os pigmentos envidraçados, num prato floreado de divagações. O fumo alicerçado no edifício pode cair dentro do alguidar mas existe a loucura no trilho das janelas para espalhar o ruído surdo dos murmúrios. Enquanto isto na escuridão da noite caminha-se de chinelos com a ajuda duma bengala, toque de cantos dispersos provenientes dos atordoados candeeiros.

Imagem retirada da net - Autoria desconhecida

Wednesday, August 05, 2009

Lua Purificadora

Descalços meus pés mergulham nos sabores da Lua, na purificação aberta dessa silhueta que arde em fogo, não parando de dançar nas chamas do desconhecido. Cada fissura penetra o eco deslumbrante das mãos atadas no cordão virgem de alcançar o inatingível espírito, voar dentro da Alma, na inconstância de absorver o que de mais íntimo sai das pétalas. Trecho da melodia que a Lua faz acompanhar suas notas, a amante de muitos prazeres eternos.

Imagem retirada da net - Autoria desconhecida

Tuesday, July 28, 2009

Notas de Galhos

Existe um corredor nas entranhas da loucura, próximo do patamar da eclosão, onde cada Ser mergulha suas vestes na pele retorcida. Até se ouve o despir das sensações no recanto do arrepio com a viagem nublada como plano de fundo. A entoação perfilada na mão dos desconhecidos pode provocar a fuga dos pincéis para o resguardo labiríntico da tela. O estado invisível é transparente à nota, sucumbe e dá ao esboço o monumento da versatilidade. Por isso cada momento das pétalas cabe aos galhos o destilar do néctar.
Abraçai sempre as vossas essências...

Galeria de Manoel Soares de A. Neto - Pássaro nos Galhos

Saturday, July 25, 2009

Mergulho no Brilho

Folhas orvalhadas no dorso da colina
Regam a pele, regam o céu…
Nos pingos com sabor a remoinho
O carinho da corrente ondula
Junto da arqueada ponte

Descai o mergulho das mãos
No assento dos lábios.
Veneno cava sozinho
O absorver das silhuetas
Impregnadas

A Muralha sente o fluxo
Da ampulheta.
Devorar a Alma
Devorar a essência
Devorar o horizonte do mar
No brilho intenso do Tear das luzes

*Dedicado ao Funicular dos Guindais, Porto

Monday, July 20, 2009

Sina

O fumo enlaçado no mistério da fusão do mar com o sentido embriagante da carroça das ilusões, aquela que viaja no rodopio de montes na incessante labareda de saborear o momento sublime das sinas. Quando o destino perde o trilho da mão, vira o mundo para a fonte envenenada em que o Amor contagia a lucidez impura. Todas as masmorras têm o seu lugar, no ângulo latente da harmonia e a salvaguardar a definição mais obediente do palpitar transparente; este som rasga a Alma mesmo sem saber o toque da visão. Os condimentos da escravatura não deveriam ser plantadas em Seres que desenham as silhuetas com a sensualidade dos pincéis de vento, assim acontece com Silêncio.

Baseado na leitura da Obra de Didier Comés, Silêncio – 1- A Iniciação e 2- A Vingança.

Foto da capa do livro, A Iniciação de Didier Comés, tirada da net

Tuesday, July 14, 2009

Cego

O Cego na sua “opacidade” cria imagens da harmónica, nota recombinada com o fulgor das chamas que passam do incolor para cores perfurantes ao olhar. Existe na cegueira a formação moldada de fulminantes paisagens, quedas de água gemendo o sopro do dedilhar a tela na lâmina de um acolhedor madrugar, incessante visões do apocalíptico perfumar da essência. A abstracção dos sentidos rola no interior da incógnita fragrância, suspenso na fronteira de captar o invisível dentro do oculto.
A solidão catapulta alucinações distribuídas em mantos aleatórios, pintadas pela escuridão enturvada do fresco cálice. A mão segura firmemente o horizonte, e todo o Ser mergulha num ápice na construção do caos; imagem flutuante do Cego, mágico pernoitar da eternidade no amadurecido néctar da captação insaciável. Em tudo isto todos os Cegos fazem seu rendilhado esboço.

Cego não vê; Cego semeia, rega, colhe a Alma…

Bonsai Por Walter Paul

Saturday, July 11, 2009

Pó Virgem

O virgem pó encontra-se espalhado pelas cortinas do tempo, aberto aos dedos que fazem ranhuras com sabor a esboços. Da bancada desta dança o corpo desfaz-se num banquete esculpido com o ardor, melodias de portas a ranger, estrado a escoar os murmúrios da essência. Mais perto do inalcançável o cometa deixa rastos de fogo, salpicos de pós, grãos da simplicidade aberta ao rascunho do coração, pureza da qual a mordedura de sorrisos canta o virgem pó.

Galeria de Sandro Andretta

Tuesday, July 07, 2009

Tristeza da Lua

A mudança da imagem estagnada olha o ponto crítico sentado na escada das sensações. Cumprimenta-se a viagem com as pernas a retroceder, apesar da distância dos espelhos devorar o mistério. Cada abertura nublada pinta o reflexo; cada acto de respirar minimiza o esquecimento; ou, se a ousadia o permitir, a levitação chega ao ponto do não retorno. O chilrear perpétuo alcança os contornos iluminados ao mesmo tempo, naquela fracção pingada do orvalho, a sossegada sombra pendura-se no horizonte fugidio surpreendendo a torre da memória.
O palco da tristeza está apresentado. Agora a Lua acolherá a sobrevivência do Ser na sua imaculada vontade de absorver os pigmentos, o propagar dos recônditos fumos.

Galeria de Paul il Ramingo

Thursday, July 02, 2009

Respiração Desfolhada

Sopro da brisa dentro do fogo, assim é a respiração; adopção permanente da esperança da Alma em absorver o cálice dos remoinhos saltitantes. Cada envolvimento existe a carência, mas nesse entrelaçar a partilha favorece a convivência insana. Está lá na perseverança da ausência delimitada, organismo intermitente a consumir um compasso encadeado pelas cordas desfolhadas numa plateia ávida do invisível para acarinhar as cortinas, a embalsamada viagem.

Galeria de Prairiekittin - Albuns

Sunday, June 28, 2009

Mosaico de Salpicos

Mosaico aberto na ventania da chuva, cortinas espalhadas no momento taciturno. Resplandece as gotas no Verão, brilhando nos cabelos arrepiados do escorregar sombrio, toque moldado da respiração. As cores dedilhadas, espelhos penetrantes a rasgar a sentinela dos pincéis. Todos os salpicos intercalam a pintura numa levitação eterna.

Alan Jaras - Light Photography

Thursday, June 25, 2009

Pés Descalços

Os pés são delícias de chamas, rendilhadas nas erupções imparáveis dos turbilhões, no fogo salpicado de formosos tecidos, eles cavam toques de demência numa bússola serpenteada de labirintos. O trapézio do seu movimento gira em torno de odores profundos, iluminações de películas assombradas pelas sombras duma aflição de ternura. Símbolo interior de folhas moldadas com o sopro do orvalho.

Imagem retirada da net

Monday, June 22, 2009

Máquinas Infernais

Quando percorro o infinito chego perto do apocalipse, fantasma do véu colorido de nevoeiro a cobrir as estrelas em pura fermentação. O retrato de fogo pode abrir imagens pecaminosas quando somente soletram o pergaminho da folha dobrada no suspiro. A magia reunida das brasas da lareira, mausoléu dos demónios, as teias feitas do doce vento dilacera o dorso dos cometas de fogo enquanto as máquinas trituram o tempo num silencioso compasso.

Friday, June 19, 2009

Sossego

Destilação do caminho, rabiscar as janelas embaraçadas enquanto a dilatação faz faíscas na escadaria nublada. Onde se esconde o vulto dos mares descobertos? Manifestações descaídas do sossego.

Friday, June 12, 2009

Trilho do Crescimento

No quintal dos feijoeiros o relógio aponta os ponteiros para o lado direito, entrelaçam as flores no remoinho dos troncos cobertos de frutos, pinga a doçura acolhedora da rodriga. Nos trilhos feitos em desalinho da enxada, calmo desfolhar da água pernoita no olhar astuto de entranhar seu licor. Afunda em salpicos demorados ou esvai-se juntamente com os raios atormentados, enquanto o crescimento regozija a partilha da eternidade.
No recanto o pipo aguarda a semente do seu néctar, envolvido na dormência efervescente do êxtase perturbado. Trepar na delícia do prazer que os lábios irão ritmar esse pulsar num imaculado resplandecer das misturas.

Wednesday, June 10, 2009

Chuva Rasgada

Trucidado dentro da semente a aresta da flor germina, bordado num aflito corredor escuta-se o murmúrio do crescimento, vozes atormentadas pelo vento a trovejar o gotejar da cerimónia. Assim desaba a energia flutuante do céu sobre a natureza acolhedora, sopros de trovões a tilintar um harmonioso festival de silhuetas, além da imaginação, perto da humildade afectuosa.