Tuesday, May 23, 2006

O Homem Atlântico


"...Continua também esta exaltação que me vem por não saber o que fazer disto, deste conhecimento que tenho dos teus olhos, das imensidades que os teus olhos exploram, por não saber o que escrever sobre isso, o que dizer, e o que mostrar da sua insignificância original. Disso, sei apenas o seguinte: que já não posso fazer nada a não ser suportar esta exaltação a propósito de alguém que estava ali, de alguém que não sabia que vivia e de quem eu não sabia que vivia, de alguém que não sabia viver, dizia-te eu, e de mim que o sabia e que não sabia o que fazer disso, desse conhecimento da vida que ele vivia, e que também não sabia que fazer de mim..."

O Homem Atlântico, Marguerite Duras

Flutuar

Fixo o olhar nas palavras,
No rosto torcido da saudade...
Longe dos cabelos perfumados,
Encosto-me ao fogo...

O silêncio flutua,
Não posso olhar o vazio,
Não posso tocar o beijo,
Escolho a escuridão da Lua...

Sei da lei que serei rei...
Dum pó de sangue,
Da água com perfis de escravidão.
Pescoço com osso...

AAiii

Hoje acordei a sofrer
Com uma lágrima nos lábios,
Torci o corpo nos lençóis
E abracei a pele nua de rios...

Deixei o vento entrar
No canto das costas,
Só um pouco, porque
Não queria humedecer...

Queria escorrer a lágrima
Para o fundo do poço,
Entrar na minha escuridão,
Penetrar-me neste gemido...

Monday, May 22, 2006

Abismo

As masmorras dos pés que marcham roçam na minha pele. Estou morto de vontade de sugar a terra, o odor da cor, a doçura das pétalas, o rosto desfolhado. Se na mistura das grades houvesse um espelho de sangue que perfurasse cada pegada, a imagem iria ser espalhada sem destino.
Estou convencido que só se quer provar um pouco, apenas para sentir a abstracção doutro ser. O tempo afunila a sua espessura sem deixar entrar na verdadeira essência. E na Alma os sentidos mantém-se intactos, para dedilhar as arestas, não da pureza, mas dos cantos do abismo que fazem viagens. Quando não se pega em troncos que da sua casca moram cataratas é porque simplesmente tudo são cinzas, ou o chorar da água não foi feito para desabar em nenhum poço…Enfim…

Pó Branco

Desvio as cortinas, sinto as mãos...
Abro a janela, vejo um poço...
Os olhos cruéis despedaçam-se
Em veias de raios...

Profundidades de madeira sem sentido,
Escapo de visões fúnebres...
Palpitar, degolo-me de prazer
Exaltando as raízes de nuvens...

O pó branco desce para se
Agasalhar nas paredes húmidas,
Segrego o isolamento,
Da pureza florida...

Friday, May 19, 2006

Pequenas Maravilhas

Link

Engoli

Sento-me aqui, sento-me ali...
Aqui não sinto...
Porventura estarei ali...
Engoli o que li...
Perdi as margens de ti...
Dilema do covil
Escondido do meu ser senil...
Dispo-me ali, dispo-me aqui...
Vi...Vi...Vi...Venho-me...

Thursday, May 18, 2006

Pétalas

A mera ilusão de fazer crescer uma flor dentro de mim não passará disso. Somente uma imagem da miragem que penetra na visão do inconsciente dum sonho. Os sons da melodia de mim é escavar sem destino, ou seja há coisas que não foram feitas para nascer. Quanto mais se escava mais sinto que essa libertação é em vão. Liberta-se sentimento e não obtemos sentimentos de volta. A ausência existirá até ao último fôlego aliviar o zombie. Rasgos de nevoeiro são os fantasmas da busca insaciável, a contornar labirintos em que o ponto final é o ponto de partida. É como no filme CUBO. Aprendo que o cair é sempre o ponto mais alto, e o levantar o ponto mais fúnebre. Estas notas pautam e pautarão sempre estas linhas, a rodearem esta viagem. Não tenho o que as pessoas desejam porque tenho somente a mim. Pouco, muito pouco, mas que para mim é o meu único alimento. A escrita torna-se dúbia, abstracta...Como sempre, sem sentido.

Madeira

Poços de madeira são as mulheres.
Incham os olhos de espanto...
Rasgam e raramente penetram...
Sangram ouvindo o silêncio...

Não tenho nada para oferecer
Daquilo que verdadeiramente querem...
Apenas deixo escurecer
A ausência da viagem...

Tudo é mera ilusão...

Wednesday, May 17, 2006


















DarkViolet Esboço

Cores... Aonde?...
Felicidade...Porquê?...
Misantropo...Despido?...
Respirar...Morrer?...
Coração...Escavar?...
Dançar...Queimar?...
Só...Amar?...

Hospício

Enigma do santo canto
Que mergulhado se encontra cortado.
Palpitar do ser plantado
Num hospício dum recanto.

Só, olhos tristes embebidos...
Pó, voz rouca em tecidos...
Dó, dos pés esquecidos...
Mó, ceifa de sons retidos...

Tuesday, May 16, 2006

Altar

No altar dos Himalaias...

Não sei se há flores em canteiros despidos...
Não sei se o perfume das asas chega aos céus...
Não sei se as lágrimas da chuva são vitrais...

Sei que existe uma silhueta no cordel da memória...

Não sei se os olhos estão cegos...
Não sei se há vontade em mim...
Não sei se há força feita de aço...

Sei que existe uma silhueta no cordel da memória...

Monday, May 15, 2006

Novelo

Desmorona o castelo
De fantasmas com estandartes...

Sopra a desmesurada cratera do coração
Afunilada na vertigem,
Ouvindo o palpitar do rastejar
Nos escombros vibrantes da imagem,
Decepo os ossos a tocar
Cordas ocas de emoção...

Visionar pedaços de arte
Peço um novelo...

Friday, May 12, 2006

Hurricane Moon

Dentro das tempestades cai a chuva,
Dentro do fogo rebolam as brasas,
Salpicos inflamados de murmúrios
Num uivo de luz...

Estranhas fontes que serenam
O derramar da cera de pétalas...
O perfume imerso, trémulo...
Os gritos fazem ranger as velas...

Carvão, sedução...
Transpira o ar de prata...
Cadência do céu a olhar
Espaço a enfeitiçar...

Planície

Os horizontes penteiam-se de pastagens
Para o véu de sangue cobrir os pés...
Galopo sem vista, coberto de viagens
Rasgando a suavidade dos pés...

Frio gelado da memória a dançar
Em pingos de pedra no chão,
Em vazios de vastidão...

Ancorar nos ferimentos que virão
Martelo o descascar da pele
Dilacero a Alma das planícies...

Thursday, May 11, 2006

Mongólia

Dúvidas

Não sei...Porventura...Talvez...Mas...

Os troncos abrem-se,
No calcar dos pés feitos de pó...
A estaca penetra,
No derramar da seiva feita de pó...
O cálice degolado
Esfrega-se no pó...

O olho cai na solidão da tinta...

Wednesday, May 10, 2006

Carlos / Me

Carlos - Estás com os olhos de quem apanhou uma...
Me - Quem?! Eu?!
Carlos - Sim. Não enganas ninguém.
Me - Eu não.
Carlos - Tens sim. E foi numa barraca...
Me - Qual barraca?
Carlos - Aquela barraca...
Me - Qual?!
Carlos - Aquela donde vendem shots...
Me - Ahhhh!!! (Olhar de quem nunca viu um shot à frente) ...

Cruzes

Violentos olhos que pingam
Na avalanche de rochas...
Escurece o dourado
Dos pés que voam...

Cicatrizes de fogo,
Cruzes enterradas,
Papéis de tinta
A esvanecer os sons...

O tilintar de mãos frias...

Monday, May 08, 2006

Lençóis

Acordei à noite...
Acordei de noite...
Dormi acordado em cima do ombro...
Deixei os olhos nos lençóis...

Furei o tempo...
Agreguei os poros...
Soltei o licor...
Derramei a leveza...

Dormi de dia...
Devia...
Invado os pés...
Penetro o toque vazio...