Thursday, July 03, 2014

O homem de chapéu

Dei uma olhadela para o rio quando estava próximo de chegar a casa. As pessoas em pequenos grupos a falar, e perto da porta de casa vi um homem caída no passeio, a resvalar para a estrada. Olha em redor e as pessoas continuam a falar sem dar importância ao homem caído. De chapéu, com aparência de ter perto de 80 anos, quase moribundo. Aproximo-me do homem e tento verificar se ele está bem. Responde-me normalmente. Talvez esteja um pouco alcoolizado. Quando lhe pergunto se ele quer beber algo, diz-me logo que não quer vinho, só agua. Fiquei ao pé dele a meter conversa, para ver se ele se conseguia levantar para ir para casa. Pergunta atrás de pergunta diz-me que morra no bairro do cerco. Um local um pouco distante de onde estamos. Acaba por dizer que já morou aqui mas agora já não. As pessoas passam e tratam-no por “Pirolas”, um antigo trabalhador da CP que trabalhou também na suíça e na Índia. “A Índia é nossa.” 
Mais um Ser que lhe tiraram a casa e a Alma do seu habitat natural. O colocaram num sítio que não lhe diz nada, e tem que retornar às origens para poder sorrir um pouco. Somos mercadorias, nada mais que isso… 

Só quer saber para que lado é o cemitério para depois de se levantar seguir o caminho contrário.

Monday, March 05, 2012

Cadeira isolada


Existe um estado compulsivo insanável que comprova a despreocupação libertina do querer. Numa sala desprovida de móveis, uma cadeira isolada num canto. Os alicerces de madeira furam o chão imaculado numa provocação nua, palavras cruas a espremer a emoção da vontade. Ao escolher a misericórdia erecta a excitação rega freneticamente um regaço de dedos. Solidão momentânea aprisionada na dança do significado. Existência dum toque relaxado onde a palavra não silencia o acto. Acto do qual se espreme o enforcamento num romance de trilhos desconexos; galopa uma balada masturbativa. Apetece o desafinar constante de inventar o que respira da vontade. Não há um não, não há um sim, há somente o escorrer, um correr a descarrilar.
Não existem formas silenciosas, somente atracções para o abismo a provocar o pulsar. Agora o pulsar, e não só agora, o canto do silêncio da cadeira isolada na sala geme no seu mau feitio. Sem nenhuma razão a terra é rasgada pelos suplícios dos enforcados. A forca é o brotar da masturbação, e nela é dito tudo, noção perseguido por um tiro fulminante sem vergonha.

Monday, February 20, 2012

Obra


Ao não teres possibilidade de adquirires um livro pega numa caneta, folhas e mão à obra.

Manuel Pires

Thursday, January 19, 2012

Acontecimentos

Existe a contracção do organismo, o peito a desfalecer, a memória expande-se até ao limite. Foda-se; Pode-se por vezes escolher o lugar da morte, o subterrâneo da última sensação. O sopro é um apelo frio, um resto áspero da queda infinita. Estou perturbado. A memória está em expansão, quase a explodir. Para onde? Para que lugar? Para que tremidos orifícios? Não há resposta. Há múltiplas respostas. Toma-se um ponto como objectivo, aquele que pinga como orvalho desfalecido, e tudo treme de forma gélida, concentrada. O corpo e a mente juntam-se no abismo da tentação fúnebre. Cada estímulo pode desaguar num sentido ambíguo, uma flecha rude que marca o destino. Rasga-se tudo e o tempo passa à frente do fluxo.

Tuesday, September 06, 2011

Vann Nath

Quando de repente se ouve o estrondo das tintas a rasgar o passado, questiona-se a forma de como os relâmpagos estiveram cegos ou não puderam revoltar-se. O metabolismo torna-se impotente, fica na sofreguidão de um apodrecimento lento, duma forma crua de solidão imposta. O objecto humano é torturado até ao último grito, fazendo eco sem o som se propagar. São lagos de sangue, caveiras de dor a desembargar naufrágios, mutilação absorvida. As Estrelas brilham intensamente no interior apesar de toda a atrocidade, de todos os fantasmas sem misericórdia.

Sunday, July 31, 2011

A Arte

Quando se encaminha para observação da arte é preciso saber que nesse momento o Ser é executado. Todos os sentidos entrarão no processo de absorção, catapultando para o extermínio de qualquer forma de retorno ao momento anterior. Todo o Ser despedaça-se, jamais para germinar, nunca mais para criar um trilho de pureza.

Friday, July 08, 2011

Trilhos

Olhai à vossa volta. O que há para descobrir no meio dos trilhos?

Saturday, May 21, 2011

Estepes Ucranianas - Ucrânia

Campos afundam a paisagem a transbordar o horizonte na fogueira da Alma. Escuto as casas assombradas que se escondem nos labirintos dos nevoeiros, romper a demência, clamar pela solidão de trotear os assobios das trovoadas. A alucinação mergulha no prado do não retorno, corredores de claridade esfumada, moldada no invisível arrepio. Grito para ouvir o silêncio, ouço o silêncio para tocar o orvalho, toco o orvalho para elevar a Alma. Enquanto isso os cavalos estremecem a terra, criando o terramoto das estepes. O sentimento esvoaça com ardor, uma brisa, uma ventania, a leveza intacta.

ESTEPES UCRANIANAS

Sunday, May 15, 2011

Campo de Auschwitz - Polónia

Sente-se o canibalismo evaporado, a visão dos sapatos libertos dos Seres. O ar está entrincheirado em arame farpado que rasga as tripas e se infiltra no desespero. Fornos encapuçados de pessoas, amontoados labirintos para o sofrimento, a monstruosidade para não olvidar. É quase impossível não sentir tanto esmagamento numa pessoa num só lugar. O corpo fica apertado, tão gélido que se ouve o ranger nos campos que incendeiam Auschwitz. Um rabisco na parede ou na madeira, a rudeza de um grito cobarde a amedrontar o inocente perdido. Para contrariar o passado no presente é preciso não deixar aprisionar os gritos e não pintar as celas com nevoeiro.
Atrocidade humana no estado puro da irracionalidade. O ódio de dilacerar preso em si na contemplação de ficar nas masmorras, no isolamento da solidão. Afinal é brincar com a vida, minar o seu próprio Ser.

CAMPO DE AUSCHWITZ

Wednesday, May 11, 2011

Desfiladeiro de Vintgar - Eslovénia

As rochas quase se tocam a beijar o tormento. A garganta ecoa as águas aos trambolhões. Fecho os olhos sinto-me entranhado neste bálsamo de sensações. As mãos tocam a brandura do som no vento, na mistura impaciente de afunilar o atrevimento bruto, derramar a eternidade na sobrevivência da queda das sombras. Os raios solares penetram timidamente numa brisa desconcertante; a sedução de saciar a chama, de despir as rochas com o orvalho das árvores.
Quando se mistura o eclipse com o afunilar da água os sentidos tremem de ansiedade. Tudo volta a ser captado com o cálice do momento infernal. Aqueles murmúrios descaem dentro do Ser em cânticos a criar sinfonias. Pinga o orvalho.

Friday, May 06, 2011

Parque Nacional Plitvice - Croácia

As águas desaguam numa frenética ebulição, povoam os segredos de se unificarem, de restabelecer o equilíbrio do paraíso. Do toque cavernoso do bosque a crepitar balas de outros tempos, germina o incêndio do fluxo intemporal da natureza. Há o momento de agrupar a paz, unir o estado de harmonia, deixar florescer o gelo para colher as flores que despontam pelos espaços vazios num festival de cores. As cores assobiam pelas aberturas dos ramos, acolhe a melodia dos animais, dando á Alma a sustentação de se preencher com as subtilezas das magias deste paraíso Croata.

PARQUE NACIONAL DE PLITVICE

Sunday, May 01, 2011

Fortaleza de Golubac - Sérvia

A estrutura de torres viradas para o céu faz transparecer remoinhos de ventania. Vento que sabe enlaçar-se às carícias das águas, estimular a energia do aconchego. Quando a protecção das muralhas clama esta companhia, a notas entram em partilha mútua. Tudo se envolve como de um coração se tratasse, estrondos abertos ao deambular da vontade. Nas beiras das torres os canhões gemem como calhaus isolados, contemplar a oscilação titubeante de mergulhar nos subterrâneos das cavernas. Congelo os pés ao mergulhar o relevo incerto no íntimo fluxo da floresta. Tudo se conjuga para amontoar as virtudes no coração, na teia explosiva das torres.

FORTALEZA DE GOLUBAC

Wednesday, April 27, 2011

Castelo de Hunyad - Roménia

O sangue brota nas esquinas das torres, reflexo perturbado pelas escadas que se enroscam em masmorras perpétuas. O sopro debruçado de empalamentos é a brisa suave perante o Ser no seu estado mais íntimo. Geme a visibilidade da transparência a colmatar a solidão imposta. A fúria intempestiva de rasgar o tempo permanece sem limite, sem fronteiras. Fase ao quebrar das grades as mutações cavalgantes torna o eriçado ardor a justiça de tornar as veias uma colmeia de degraus para saborear o estímulo dos sentidos embriagados.
Preencho a fogueira com o estalar frenético do corpo em chamas. Os pedaços desfragmentam-se ao sabor da insaciável combustão. Retemperar as grades do inferno.

CASTELO DE HUNYAD

Friday, April 22, 2011

Trigrad - Bulgária

Escuto os demónios invadirem a minha mente, a afunilar demências em puros abismos. Qualquer configuração simboliza o estreito trilho entre enlouquecer e endoidecer, contemplar estados vigorosos na permutação aflitiva de penetrar e não querer sair. Sufocar em suspiros, completa forma de guardar o eco na exteriorização dos gritos. A intimidade permuta com o fluxo da natureza num vai e vêm a prolongar o instantâneo. Não existe nenhuma margem para a sobrevivência, somente o tremor de galgar temperos de água insana num dialecto impronunciável. Quando as cordas são colocadas no alto dos penhascos, o som de voar apregoa ao vento para suster o fôlego. O fôlego respira demónios que foram e nunca mais voltaram a outras paragens senão a esta de Trigrad.

TRIGRAD

Monday, April 18, 2011

Estreito de Bósforo - Turquia

Este estreito é uma fronteira entre dois continentes, num sítio onde a água entrelaça sangue derramado, tesouros perdidos, balas de canhão ou ossadas afundadas. Suas margens morram castelos, combates de honra, ou cobardes roubos, ou autênticos massacres.
Os barcos flutuam freneticamente ora saindo ora entrando no Mar Negro, pérolas a estremecer a extremidade para puder sentir o oriente entrar nos sentidos do Ser. A coloração das variedades inunda os mercados de Istambul, a povoar o encontro das várias culturas num toque de lamparinas que escuta o balançar das estrelas brilhantes. Ausento-me dos meus ossos, vou até aos meandros do por do sol para incendiar o gelo sepultado no coração.

ESTREITO DE BÓSFORO

Tuesday, April 12, 2011

Eufrates Tigre - Mesopotâmia

As notas da lira propagam-se pelos rios, inundando as lanças que rompem a escadaria dos céus. O silêncio obscuro da areia cava os tempos de prosperidade, túmulos irrigados de abastados medos. A confusa ideia tortura o Ser, deixa-me suspenso na angústia de estimular as riquezas do passado. Todos os locais tem no seu âmago a criação de labaredas, em que quando se regressa se sente a ausência a perfurar a saudade. São estes remoinhos a espreitar a água do deserto que faz desabrochar formas alternativas de simbiose. Cultivar a propagação dos secretos, a incógnita tecla de brilhar além do firmamento, Lunar desejo de ficar impregnado pelos irmãos.

EUFRATES - TIGRE

Thursday, April 07, 2011

Petra - Jordânia

A pedra foi escavada numa meticulosa tarefa, árdua forma de semear o labirinto, de escorregar na penumbra dos tempos. Flutuar nas gargantas abertas das rochas, vislumbrar tesouros banhados em túmulos, gargalos de licores aromatizados. O vento escorre por estas vielas, mercadores dos tempos que as trilhavam com os camelos enchiam bolsas de magia. Enquanto a fé perdurar, as subtilezas do pó vaguearão como tempestades remotas que se aproximarão num ápice, se aninharão nas ruínas até elas incendiarem incessantemente na cordilheira das delicadezas.
Ouço a agitação dos murmúrios das ossadas brindarem a vinda da ceifa dos vivos. Mais fundo a iluminação escurece, mais as cavernas se tornam visionárias. Escritas que as pedras não escondem.

PETRA

Saturday, April 02, 2011

Jerusalém

Enfrasco os pecados do corpo no fluxo embebido do veneno. Gota a gota escuto o tombar dos relâmpagos, cruzes esboçadas na pele, ensanguentadas vestes do delírio. A salvação fica pendurada no enforcamento dos tesouros, cravar o papel para que de lá se queime a maldição, se funde os abismos no olhar da transparência.
Conturbadas masmorras que o céu oferece como dádivas da oração divina. São ramos de flores descritas nas oliveiras, no mundo que deveria ser de harmonia e é de conflitos permanentes pelo vazio. Quando o silêncio apregoa pelas lágrimas, a pureza tem que vir num abraço para germinar sorrisos.

JERUSALÉM

Sunday, March 27, 2011

Egipto

O ritual de escutar os mortos comprime-se com o sol a expor-se à escuridão. Habitar a pedra para fundir a eternidade, escalar para chegar ao ponto de fogo, o céu. Germinar nas margens do Nilo onde a serpente se ergue tornando o reino um amuleto sagrado. A água é a bênção dos Deuses, néctar escrito nos papiros do qual bebo do cálice das minhas mãos. A barba escorre da face deixando a nudez mostrar o desejo da insanidade.
Se provo o veneno torno-me um Demónio amaldiçoado, uma chama que sopra ao contrário das tentações, mergulhado em devaneios de sentir o chicote a estalar, a pingar o sangue de voar colado a timidez. Há um sentimento torturado no odor que se espalha, a energia da deambulação a cativar os pés, agraciar a leveza com o pecado da dor.
Intimamente envolvo o Nilo na pele...

EGIPTO

Tuesday, March 22, 2011

Pompeia - Itália

O terminal da exaustão perturba as cinzas, perfurar o espaço vazio, escava sepulturas. A erupção catapulta um cemitério no desespero da sobrevivência. Não desgosto de vaguear pelas ruínas, ou de entranhar as vivências. Cada fragmento absorvido pinga, cada grito ainda se ouve pelas ruas de pedra, pelos edifícios desmembrados da sua protecção. O silêncio a silenciar-se, a fuga que se torna impossível, o destino a cumprir um soterramento da Alma dum povo. Esta tela pintada com cinzas lubrifica o terror, um tempo antigo, mas o que me deixa perplexo é como se pode esquecer de uma terra por 1600 anos e dos seus habitantes? A humanidade por vezes esquece os seus para não deixar ser amaldiçoado pelo pânico interno.
Ficaram as estátuas a carbonizar o tempo, corpos mumificados que rezam pela salvação, numa mobilidade que rasga a vertigem num descanso interminável.

POMPEIA

Wednesday, March 16, 2011

Florença - Itália

Esboçar uma tela, criar uma estátua, pingar uma ponte, abrir a corrente e deleitar-me na fonte. Quanto a Arte se molda ao Ser resta deixar a vontade mergulhar, ir à procura do instinto, os ramos da sobrevivência. Jamais a lapidação da pessoa se pode militar ao básico, por isso a procura de catapultar a imaginação para o patamar do inconsciente revela no estado afundado o grito para visualizar a loucura e dela esmagar a melodia em suaves toques de subtilezas desejadas. As portas gemem quando as janelas estão congeladas na sua forma derretida. Tudo flui na harmonia de captar a sensibilidade, a busca do pormenor ínfimo a resvalar na corrente aberta ao olhar, ao coração.

FLORENÇA

Friday, March 11, 2011

Córsega (França) - Sardenha (Itália)

Existe sempre um estado em que as Almas Gémeas se encontram e de lá mergulham num sopro infinito para a caverna das sensações. A busca interminável poderia acabar aqui, neste fosso que junta e separa, mas o que faz é brilhar o esplendor de se unirem é de saber que estão perto, de poderem sempre acariciar quando os sentidos deixarem de existir. O choque das águas revolta os demónios das profundezas mas deixa no seu manto uma água cristalina, escavações dedilhadas ao sabor de delicadezas. Quando os olhos saltitam cria-se uma corda que une estas tuas terras, as germina num apocalipse de virtudes, a Santa Teresa e Bonifácio.

CÓRSEGA - SARDENHA

Saturday, March 05, 2011

Saorge - França

Pinto ao fundo as montanhas de neve, nas minhas costas é o recolho das brasas. As casas penetram o céu nas escarpas da encosta, sendo uma donzela a tecer a silhueta num pincel. Estão juntas a roçarem os sentimentos esventrados. Pele nua em tecidos banhados. A serpente moldada toca os brincos coloridos, solta os sinos para uivar para a eternidade dos sons. Os fios de cabelo deslizam como doces pedras no dorso da água, regando o meu seio, deixando o perfume das folhas nos Altares. Quando se escuta o sussurro dos murmúrios o coração bate e resvala para o tricotar da dança privada da natureza, um bater estremecido na delicadeza retardada de enlaçar o fragmento perdido, a pérola de entranhar.

SAORGE